Artesania Fílmica Paraibana

A “metáfora do escuro” embala uma ideia de aparição daquilo que exatamente não estava visível no clarão dos trabalhos e dos dias de personagens como nós. “Maçãs no Escuro” (2024) faz nascedouro siamês – enquanto projeto estético -, com “Cervejas no Escuro” (2023), nesse mais novo filme do CIMM em parceria com a Ágora-PEP e a Toco Filmes. 

Esse escuro não se confunde com a sombra, quintessência da psicanálise, está muito mais para as dobras, ou melhor, para a “experiência do fora” de Blanchot. O escuro como uma dialética do ser em vida, por mais crua que essa seja. Como viver ignorando, por princípio inegociável, noções de verdade ou origem, na roda-viva de um teatro indesejado, eis um possível chão para o indivíduo-personagem Edson Aquino, diretor e ator de teatro agora sob a mira intersemiótica do cinema.

Edson projeta Aquino no abismo do proscênio, enquanto Aquino empurra Edson para o desterro da vida. É nesse vai-e-vem entre a vida e a arte esculpida em soslaio ato documental, com propósito solar ficcional, ou, vice e versa, que o filme visa entregar o disfarce e desvelo a um só tempo, de uma só vez, bamboleando o espectador para um túnel de in-decisões lógicas, como se lhe cobrasse um preço de escolher uma leitura não-binária da narrativa que ele assiste.

Talvez, por sua geografia subjetiva imersa no universo teatral, “Maçãs no Escuro” faz 

incursões no território da carpintaria de Artaud e de Brecht – este, já é sócio do CIMM, e também abasteceu o filme gêmeo anterior-, dotando o filme de uma mise-en-scène consciente dessa ambiência teatral de brincar de jogar a narrativa para o espectador e para o personagem

A “Odisseia de Aquino”, que dá caldo à narrativa, perfura o cotidiano, a cena teatral, os planos, as personagens, a estrutura narrativa e a metalinguagem, pulverizando uma imagética que sai do escuro para a vida. Assim como no tradicional conto A Roupa Nova do Rei, o sal da verdade faz de Aquino um legítimo Sísifo das artes do palco.

Claro está que “Maçãs no Escuro” corporifica um projeto cinematográfico autoral e de grande envergadura experimental com acertadas e felizes apostas. A boa surpresa é constatar mais uma vez o talento do diretor Tiago A. Neves e da capacidade criativa advindas dos processos analógicos e das afinidades eletivas do CIMM.

Uma coprodução paraibana e paulista que conjuga atos de artesania colaborativa e o resultado aponta inequivocamente para uma miríade de provocações sobre o estatuto do cinema contemporâneo, seus sujeitos coletivos, suas histórias e suas abordagens e práticas em busca do espectador autônomo.

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